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Ilustração 3D do split payment: cartão escuro conectado por traços luminosos a cubos de vidro com documentos e moedas, representando a segregação automática de IBS e CBS na liquidação financeira do pagamento — TaxUp
NOVO MECANISMO · LC 214/2025 · Decreto 12.955/2026 · IBS · CBS

Split Payment.
Retenção na liquidação.

O imposto deixa de passar pelo caixa da empresa: na liquidação financeira do pagamento, o IBS e a CBS são separados e seguem direto ao Fisco. Modalidades, arranjos, etapas, prazos de devolução e o impacto no fluxo de caixa.

Publicado 4 de maio de 2026 · Atualizado 27 de junho de 2026 · Leitura 22 min

O split payment é o mecanismo da Reforma Tributária em que o IBS e a CBS são segregados e recolhidos no momento da liquidação financeira do pagamento — Pix, boleto, TED, TEF e, em etapa posterior, cartões. Em vez de receber o valor cheio e recolher o tributo depois, o fornecedor recebe o valor líquido, e a parcela do imposto segue direto para a Receita Federal (CBS) e para o Comitê Gestor do IBS. A figura está prevista nos arts. 31 a 35 da Lei Complementar 214/2025, foi regulamentada pelo Decreto 12.955/2026 e ganhou especificação técnica com o Manual de Integração da Plataforma Pública (Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 2/2026). A operação começa facultativa em 2027, restrita a operações entre empresas, e se torna obrigatória em etapa seguinte, ainda sem data marcada.

01

O que é o split payment (e o que muda em relação a hoje)

No sistema atual, o tributo embute-se no preço e transita pelo caixa do vendedor: a empresa recebe o valor cheio da fatura, apura ICMS, ISS, PIS e COFINS e recolhe no mês seguinte. Entre o recebimento e o recolhimento, o valor do imposto funciona como capital de giro — e, quando a empresa quebra, atrasa ou sonega, o Fisco fica sem o tributo que o consumidor já pagou.

O split payment inverte essa lógica. A LC 214/2025 lista o split como uma das modalidades de extinção do débito de IBS e CBS (art. 27, III) e disciplina seu funcionamento nos arts. 31 a 35: quem segrega e recolhe é o prestador de serviço de pagamento, no exato momento em que a transação é liquidada.

COMO FUNCIONA UM PAGAMENTO COM SPLIT PAYMENTPlataforma PúblicaReceita Federal + Comitê Gestor do IBSdevolve o valor do tributo em abertoClientepaga a fatura normalmenteR$ 126.500Banco / arranjo de pagamentoPix · boleto · TED · TEFsegrega o tributo na liquidaçãoFornecedorrecebe o valor líquidoR$ 100.000União (CBS) + Comitê Gestor (IBS)tributo extinto no ato do pagamentoR$ 26.5001 · PAGAMENTO2 · CONSULTA3 · RETORNO EM TEMPO REAL4 · SEGREGAÇÃO IBS + CBS5 · LÍQUIDOExemplo com alíquota-padrão conjunta estimada de 26,5% sobre venda de R$ 100.000 — valores definitivos serão fixados por resolução do Senado.
O fluxo de um pagamento com split payment: o tributo é segregado na liquidação e o fornecedor recebe o líquido.

Na prática, o fluxo de um pagamento com split tem cinco momentos:

  1. Emissão — o fornecedor emite o documento fiscal com IBS e CBS destacados e origina a cobrança (boleto, Pix, TED, TEF) já com os campos do tributo e a identificação do documento fiscal.
  2. Pagamento — o cliente paga o valor cheio. Nada muda para quem paga.
  3. Consulta — antes de liberar o dinheiro, o sistema de pagamento consulta a plataforma de governança compartilhada da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS para saber quanto daquele débito ainda está em aberto.
  4. Segregação — o prestador separa apenas o valor devido e o repassa à União (CBS) e ao Comitê Gestor (IBS).
  5. Liquidação líquida — o fornecedor recebe o valor sem o imposto. O crédito do comprador nasce vinculado a esse pagamento confirmado, não apenas ao destaque na nota.

Esse último ponto explica por que o split payment é mais que um mecanismo de cobrança: a LC 214 conecta a apropriação de créditos (arts. 47 a 56) à efetiva extinção do débito na etapa anterior. O split é o caminho mais rápido para essa extinção — e, por isso, tende a se tornar o padrão de mercado nas operações entre empresas, mesmo na fase facultativa.

Em uma frase: o split payment transforma o recolhimento de IBS/CBS de obrigação mensal do vendedor em evento automático da liquidação financeira — o tributo deixa de ser promessa e passa a ser fato no momento do pagamento.
02

Base normativa: onde cada regra está escrita

Quem quiser conferir as regras na fonte encontra o split payment em camadas normativas, cada uma com um papel:

NormaDataO que define
EC 132/202320/12/2023Autoriza o novo modelo de recolhimento na reforma do consumo
LC 214/2025, arts. 31 a 3516/01/2025Cria o split payment: deveres dos prestadores de pagamento, procedimento padrão (art. 32), procedimento simplificado (art. 33), devolução de excessos
LC 214/2025, art. 3616/01/2025Recolhimento pelo adquirente — modalidade própria para pagamentos por instrumento que não comporta a segregação (ex.: dinheiro em espécie)
Decreto 12.955/2026, arts. 28 a 3929/04/2026 (DOU 30/04)Regulamento da CBS: lista os 12 arranjos, detalha procedimentos padrão e simplificado, antecipação de recebíveis, ZFM, ressarcimentos e implementação em no mínimo 2 etapas
Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 2/2026DOU 03/06/2026Aprova o Manual de Integração v1.0 e o Swagger da Plataforma Pública do Split Payment — a especificação técnica das APIs
Atos conjuntos futurospendentesCronograma de ativação de cada etapa, percentuais do procedimento simplificado por setor, habilitação dos arranjos

A leitura conjunta importa porque cada camada usa um vocabulário próprio — é daí que vem boa parte da confusão sobre as "modalidades" do split payment, tratada na seção seguinte.

03

Procedimentos e modalidades: o mapa completo

A LC 214/2025 estrutura o split payment em dois procedimentos — padrão e simplificado — cercados por salvaguardas de contingência. Sobre essa base legal, a camada técnica da Plataforma Pública desdobrou o procedimento padrão em modos operacionais que o mercado apelidou de "super inteligente" e "off-line". As duas nomenclaturas descrevem o mesmo sistema, em planos diferentes.

CAMADA LEGAL — LC 214/2025 E DECRETO 12.955/2026Procedimento padrão ("inteligente")LC 214, ART. 32 · DECRETO, ART. 29Consulta os sistemas do Fisco e segrega apenas o valordo tributo ainda em aberto no documento fiscal.SimplificadoLC 214, ART. 33 · DECRETO, ART. 30Percentual preestabelecido sobre aoperação, com ajuste no período.Fora do splitLC 214, ART. 36Dinheiro em espécie:recolhimento peloadquirente.CAMADA TÉCNICA — MANUAL DA PLATAFORMA PÚBLICA (ATO CONJUNTO RFB/CGIBS Nº 02/2026)Modo pleno"super inteligente"Retorno do Fisco em tempoquase real: segrega o valorexato, já descontado o quefoi extinto por créditoou pagamento.Modo alternativo"off-line"Sem consulta disponível:retém o valor integraldestacado e devolve oexcesso em até 3 diasúteis.Percentual fixovarejo e B2CSem identificação de IBS/CBS nacobrança, a opção é automática(art. 30, § 3º). Não gera crédito aoadquirente do regime regular(art. 30, § 7º, II).Como ler as duas camadasA lei define os procedimentos; o manual técnico define como a plataforma os executa. "Super inteligente" e "off-line"não são modalidades novas — são os modos de operação do procedimento padrão previsto no art. 32 da LC 214/2025.
As duas camadas: a lei define padrão e simplificado; o manual técnico desdobra o padrão em "super inteligente" e "off-line".

Procedimento padrão (split "inteligente") — art. 32 da LC 214; art. 29 do Decreto

É o núcleo do sistema. O originador transmite ao prestador de pagamento as informações que vinculam o pagamento à operação e identificam o valor de IBS/CBS. Antes de liberar os recursos, o prestador consulta a plataforma e segrega apenas a diferença entre o débito indicado no documento fiscal e as parcelas já extintas — se parte do imposto daquela nota já foi compensada com créditos ou paga, o sistema não retém de novo.

Dentro do padrão, a operação acontece em dois modos:

  • Modo pleno ("super inteligente") — há comunicação em tempo quase real com a Receita e o Comitê Gestor. No Manual de Integração, é o fluxo de Retorno Super Inteligente: o Fisco devolve ao prestador o valor corrigido e o valor ainda em aberto do tributo daquela transação, e a segregação sai no valor exato. Vale para boleto, Pix dinâmico e Pix automático.
  • Modo alternativo ("off-line") — quando a consulta não está disponível, o prestador retém o valor integral destacado e o excedente é devolvido ao fornecedor em até 3 dias úteis, contados da liquidação ou da vinculação da operação ao documento fiscal, o que ocorrer por último (LC 214, art. 32, § 4º).

Procedimento simplificado — art. 33 da LC 214; art. 30 do Decreto

Pensado para o varejo e para operações em que o adquirente não é contribuinte do regime regular (consumidor final, optantes do Simples). Em vez de consulta, aplica-se um percentual preestabelecido por ato conjunto da RFB e do Comitê Gestor sobre o valor da operação, com ajuste no fechamento do período de apuração.

Três regras do regulamento merecem atenção:

  • A originação de transação sem a identificação dos valores de CBS/IBS implica opção automática pelo procedimento simplificado (Decreto, art. 30, § 3º). Preencher errado já é optar.
  • O recolhimento pelo simplificado não gera direito a crédito para o adquirente contribuinte do regime regular (Decreto, art. 30, § 7º, II) — um motivo forte para o B2B exigir o procedimento padrão do fornecedor.
  • O ato conjunto pode tornar o simplificado compulsório nas operações B2C enquanto o procedimento padrão não funcionar adequadamente nos principais instrumentos de pagamento.

Contingência e recolhimento pelo adquirente — art. 32 (salvaguardas) e art. 36 da LC 214

Para falhas de sistema, a própria lei prevê a retenção integral temporária com devolução em 3 dias úteis (o modo "off-line" acima). Já os pagamentos por instrumento que não permite a segregação — dinheiro em espécie, por exemplo — ficam fora do split: nesses casos a lei oferece o recolhimento pelo adquirente (art. 36), modalidade de extinção autônoma listada no art. 27, IV.

Padrão · modo pleno ("super inteligente")Padrão · modo alternativo ("off-line")SimplificadoRecolhimento pelo adquirente
BaseLC 214, art. 32; Decreto, art. 29LC 214, art. 32, § 4º; Decreto, art. 29LC 214, art. 33; Decreto, art. 30LC 214, arts. 27, IV e 36
Como calculaConsulta em tempo real; segrega só o valor em aberto, já considerando extinçõesRetém o valor integral destacado no documento fiscalPercentual fixo preestabelecido por ato RFB/CGIBSAdquirente recolhe diretamente
Acerto posteriorNão precisaDevolução do excesso em até 3 dias úteisAjuste no fechamento do períodoApuração normal
Para quemB2B no regime regular (1ª etapa)Mesmo público, em indisponibilidadeVarejo/B2C e adquirente fora do regime regularPagamentos fora dos arranjos (ex.: espécie)
Crédito do adquirenteNasce com o pagamento confirmadoNasce com o pagamento confirmadoNão gera crédito p/ adquirente do regime regularConforme regras gerais
Impacto no caixaMenor retenção possívelRetenção cheia por até 3 dias úteisRetenção média setorialNenhum (não há segregação)
Duas nomenclaturas, um sistema. Os nomes "split super inteligente", "inteligente/off-line" e "simplificado" vêm da camada técnico-operacional (Manual de Integração da Plataforma Pública e materiais do Serpro/RFB). A LC 214/2025 e o Decreto 12.955/2026 falam em procedimento padrão e procedimento simplificado, e a doutrina costuma agrupar as salvaguardas como "split de contingência". Não são classificações concorrentes: a taxonomia técnica desdobra o procedimento padrão da lei segundo o grau de integração com a plataforma. Quem compara textos deve apenas saber em qual camada está lendo.
04

Os 12 arranjos de pagamento alcançados

A LC 214 delegou ao regulamento a lista dos arranjos sujeitos ao split. O Decreto 12.955/2026 (art. 28, § 5º) trouxe doze, e o art. 33 os distribuiu em etapas de implementação:

OS 12 ARRANJOS DE PAGAMENTO — DECRETO 12.955/2026, ART. 28, § 5º1ª etapa · 2027 · facultativasomente procedimento padrão, entre contribuintes do regime regular (B2B)IBoletoIIPix — QR Code dinâmicoIIIPix automáticoIVPix — QR Code estáticoVPix — chave ou contaVITEDVIITEF2ª etapa · data a definir · obrigatóriatodos os arranjos habilitados ao procedimento simplificado; operações B2C entram simultaneamenteVIIICartão de créditoIXCartão de débitoXCartão pré-pagoXIVoucher (aberto e fechado)XIIOutros — incluídos por ato conjunto RFB/CGIBSFora da lista: dinheiro em espécie e cheque —recolhimento pelo adquirente (LC 214, art. 36).O cronograma de ativação de cada etapa será definido por ato conjunto da Receita Federal e do Comitê Gestor do IBS.
Os 12 arranjos do art. 28, § 5º do Decreto, distribuídos entre a 1ª e a 2ª etapa.
#ArranjoEntrada no split
IBoleto1ª etapa (2027, facultativa)
IIPix — QR Code dinâmico1ª etapa
IIIPix automático1ª etapa
IVPix — QR Code estático1ª etapa
VPix — chave ou agência/conta1ª etapa
VITED1ª etapa
VIITEF1ª etapa
VIIICartão de crédito2ª etapa (data a definir)
IXCartão de débito2ª etapa
XCartão pré-pago2ª etapa
XIVoucher (arranjos abertos e fechados)2ª etapa
XIIOutros incluídos por ato conjunto RFB/CGIBSconforme o ato

Dois pontos práticos. Primeiro: cartões não ficaram de fora — apenas entram depois, de forma obrigatória, junto com as operações B2C. Segundo: dinheiro em espécie e cheque não aparecem na lista porque não são arranjos de pagamento eletrônico; para eles vale o recolhimento pelo adquirente (art. 36).

05

Cronograma: do texto constitucional à operação plena

DO TEXTO CONSTITUCIONAL À OPERAÇÃO PLENA2023EC 132reforma do consumo2025LC 214 — split payment criadoarts. 31 a 352026Decreto 12.955 + manual técnicohomologação dos PSPssem split em produção20271ª etapa — facultativaB2B regime regularboleto · Pix · TED · TEF2ª etapaobrigatória — data a definircartões + vouchers + B2Cpor ato conjunto RFB/CGIBS2029–32phase-in do IBSvolume do split cresce2033sistema pleno2026 é o último ano inteiro sem tributo saindo na liquidação.Mesmo facultativa, a 1ª etapa tende a ser puxada pelos grandes compradores — o crédito deles passa a depender do pagamento confirmado.
Do texto constitucional (2023) ao sistema pleno (2033) — e onde o split entra.
QuandoMarco
dez/2023EC 132 cria o novo modelo de tributação do consumo
jan/2025LC 214 institui IBS, CBS e o split payment (arts. 31 a 35)
2026Ano-teste da reforma (alíquotas de 0,1% IBS + 0,9% CBS, caráter informativo). Não há split em produção: é o ano de especificação e homologação — Decreto 12.955 (abril) e Manual de Integração da Plataforma Pública (junho) publicados; prestadores desenvolvem e testam integrações
20271ª etapa do split payment: facultativa, restrita a operações entre contribuintes do regime regular (B2B), nos arranjos I a VII (boleto, Pix, TED, TEF), no procedimento padrão. CBS plena entra em vigor; IS começa
data a definir2ª etapa: obrigatória, alcança cartões, vouchers e operações B2C (com procedimento simplificado habilitado em todos os arranjos). Ativação por ato conjunto RFB/CGIBS
2029–2032Phase-in do IBS substituindo ICMS/ISS — volume processado pelo split cresce ano a ano
2033Sistema pleno: IBS e CBS substituem integralmente os tributos atuais sobre consumo
Sobre as datas. O art. 33 do Decreto não cravou o ano de cada etapa — a calendarização é fixada por ato conjunto RFB/CGIBS. O marco "2027" deriva do início da cobrança da CBS: o próprio Decreto só produz efeitos plenos a partir de 1º de janeiro de 2027 (art. 619). A 2ª etapa, obrigatória, ainda não tem data.

A mensagem para o financeiro é direta: 2026 é o último ano inteiro sem tributo saindo na liquidação. Quem opera B2B com boleto, Pix e transferência deve assumir 2027 como horizonte de adaptação — ainda que facultativa, a adesão dos grandes compradores tende a puxar a cadeia inteira, porque o crédito deles passa a depender do pagamento confirmado. Veja o calendário completo em período de transição da Reforma.

06

A Plataforma Pública: quem faz o quê

A infraestrutura que conecta bancos e Fisco é a Plataforma Pública do Split Payment, especificada no Manual de Integração v1.0 (Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 2/2026). Ela funciona como um hub de comunicação: recebe os eventos dos prestadores de pagamento, valida, registra para auditoria e repassa à Receita Federal e ao Comitê Gestor — sem executar regra de negócio.

AgentePapel no split
Originador da transação (fornecedor/credor)Emite a cobrança com IBS/CBS identificados e vinculados ao documento fiscal
Prestadores e operadoras (com a Núclea nos fluxos de boleto/Pix)Transmitem os informes, executam a segregação na liquidação e repassam os valores
Plataforma PúblicaHub: valida sintaxe/semântica, garante rastreabilidade, distribui eventos
RFB e Comitê Gestor do IBSRecebem os dados, devolvem correções e valores em aberto (fluxo "Retorno Super Inteligente"), administram a arrecadação

O manual descreve sete fluxos de dados — da Transação Iniciada ao Informe de Segregação e às consultas do Retorno Super Inteligente — e padroniza erros, auditoria e rastreabilidade ponta a ponta. Para a empresa não financeira, o detalhe técnico importa menos que a consequência: a qualidade do preenchimento da cobrança passa a determinar o tratamento tributário do pagamento. Cobrança originada sem os campos de IBS/CBS cai automaticamente no procedimento simplificado, com as desvantagens vistas na seção anterior.

07

Impacto no fluxo de caixa: o ponto que dói

O split payment retira do caixa da empresa um valor que hoje permanece nele por semanas: o tributo embutido na fatura. O efeito é de transição — o que se perde é o float, não margem — mas precisa ser planejado.

Exemplo numérico

Considere uma venda B2B de R$ 100.000, com alíquota-padrão conjunta de IBS+CBS estimada em 26,5%* (teto-gatilho do art. 475 §11, não a alíquota fixada):

Regime atualCom split payment
Fatura emitidaR$ 126.500R$ 126.500
Valor que entra no caixaR$ 126.500R$ 100.000
TributoRecolhido pela empresa no mês seguinteR$ 26.500 segregados na liquidação
Float (uso temporário do tributo)~30–45 diasZero

*Alíquota ilustrativa, baseada na referência discutida na regulamentação; os percentuais definitivos serão fixados por resolução do Senado e atos do Comitê Gestor.

O QUE ENTRA NO CAIXA — VENDA DE R$ 100.000 (ALÍQUOTA CONJUNTA ESTIMADA DE 26,5%)Regime atualrecebe o valor cheio e recolhe o tributo no mês seguinteR$ 100.000 — preçoR$ 26.500tributo no caixa ~30–45 diasR$ 126.500Com split paymentrecebe o líquido; o tributo não transita pelo caixaR$ 100.000 — líquido na liquidaçãoR$ 100.000R$ 26.500 ao Fiscosegregados na liquidaçãoO efeito é o fim do float tributário — perda de capital de giro temporário, não de margem. Excessos retidos voltam em até 3 dias úteis.
O que entra no caixa numa venda de R$ 100 mil: hoje × com split payment.

Antecipação de recebíveis: a regra que muda o jogo

O Decreto 12.955/2026 (art. 31, III) é expresso: a liquidação antecipada de recebíveis não altera a obrigação de segregação. Se a empresa antecipa a fatura com banco ou FIDC, recebe o líquido antecipado — mas o split acontece quando o cliente paga cada parcela, no calendário original. O custo-benefício de antecipação e securitização precisa ser recalculado com o tributo fora da base.

O que fazer (antes de 2027)

  • Reprojetar o caixa: orçamento 2027 com recebimentos líquidos de IBS/CBS nas operações B2B em split.
  • Rever prazos e contratos: cláusula tributária explícita, política de desconto e prazo recalibradas sem o float.
  • Reavaliar linhas de capital de giro: o "tributo a pagar" deixa de financiar a operação; em contrapartida, devoluções e ressarcimentos ficam mais rápidos (seção seguinte). Veja também o crédito financeiro do IBS/CBS.
  • Garantir o procedimento padrão: cobranças bem originadas evitam a queda automática no simplificado — que retém por média setorial e não gera crédito ao seu cliente.
08

Devoluções e ressarcimento: os novos prazos

O desenho do split vem acompanhado de prazos de devolução mais curtos — a contrapartida desenhada para o aperto de caixa:

SituaçãoPrazoBase
Retenção a maior no procedimento padrão (modo alternativo/off-line)Até 3 dias úteis da liquidação ou da vinculação ao documento fiscalLC 214, art. 32, § 4º
Excedente no procedimento simplificadoTransferência ao fornecedor em até 3 dias úteis após o ajuste do períodoLC 214, art. 33
Ressarcimento de saldo credor — contribuinte em programa de conformidadeApreciação em até 30 diasDecreto, art. 39, § 9º
Ressarcimento de saldo credor — critérios de valor e perfilAté 60 diasDecreto, art. 39, § 9º
Ressarcimento de saldo credor — demais casosAté 180 diasDecreto, art. 39, § 9º

Sem manifestação do Fisco no prazo, o crédito é ressarcido automaticamente nos 15 dias seguintes; persistindo o atraso, o saldo passa a ser corrigido pela Selic. Para empresas estruturalmente credoras (exportadoras, investimento pesado), o split payment acelera o ciclo do crédito — um dos poucos pontos em que o novo sistema devolve caixa em vez de tomar.

09

Casos especiais

Simples Nacional

Quem permanece no regime unificado não tem split payment — recolhe pelo DAS. A exceção é o optante que escolher apurar IBS/CBS por fora, no regime regular ("Simples híbrido"): a parcela IBS/CBS das suas operações entra na lógica do split. Essa escolha conecta-se à Decisão Simples 2027, porque o crédito que o cliente B2B aproveita muda de tamanho conforme a opção.

Zona Franca de Manaus

O regulamento criou regra própria (Decreto, art. 29, § 7º): nas transações destinadas à indústria incentivada da ZFM, o originador pode aplicar os percentuais de incentivo sobre cada débito de CBS para reduzir os valores segregados. O benefício é considerado no ato da retenção — sem reter cheio para devolver depois. O tema dialoga com o fim dos incentivos de ICMS.

Varejo e B2C

As vendas a consumidor final entram apenas na 2ª etapa, em todos os arranjos simultaneamente, com o procedimento simplificado habilitado (e possivelmente compulsório no início). Cartões de crédito/débito, principal meio do varejo, estão fora da 1ª etapa — o comércio terá mais tempo de adaptação, mas com percentual fixo de retenção quando chegar.

Devoluções, cancelamentos e cartões

Cancelamento de venda com split executado exige estorno do tributo segregado — os procedimentos operacionais serão detalhados em ato conjunto, e o ERP precisa registrar o vínculo pagamento ↔ documento fiscal para suportar o acerto. Nos cartões, a segregação ocorrerá na liquidação ao lojista, o que coloca as credenciadoras no centro da 2ª etapa.

10

Experiência internacional: o que funcionou e o que falhou

O Brasil não inventou o split payment — mas será o primeiro a aplicá-lo de forma ampla, integrada ao sistema de pagamentos instantâneos e ao documento fiscal eletrônico.

PaísDesenhoResultado
Itália (2015– )Split de IVA restrito a vendas ao poder público (B2G) e setores específicosAumento de arrecadação; renovações sucessivas autorizadas pela UE
Polônia (2018– )Voluntário em 2018; obrigatório desde nov/2019 para setores sensíveis (construção, metais, eletrônicos) acima de limiar por transação, com conta bancária dedicada de IVARedução do gap de IVA; custo operacional relevante para empresas
Romênia (2018–2020)Obrigatório para devedores e empresas em insolvênciaRevogado após objeções da Comissão Europeia e dificuldades operacionais

As lições que a regulamentação brasileira tenta incorporar: gradualismo (duas etapas, começo facultativo), devolução rápida de excessos (3 dias úteis, contra semanas no modelo polonês) e segregação calculada pelo valor em aberto — em vez da retenção bruta que sufocou o caixa nas experiências europeias. Se a tecnologia entregará esse desenho é a aposta central de 2026–2027.

11

Riscos e pontos de atenção

  • Capital de giro: o fim do float tributário chega junto com a transição do ICMS — empresas alavancadas em prazo de fornecedor sentem primeiro.
  • Queda automática no simplificado: cobrança originada sem os campos de IBS/CBS vira opção automática pelo percentual fixo (Decreto, art. 30, § 3º) — sem retificação para aquela operação e sem crédito para o seu cliente do regime regular. Erro de TI vira custo comercial.
  • Conciliação: o financeiro passa a conciliar três valores por recebimento (bruto faturado, líquido recebido, tributo segregado) — e a defender devoluções no prazo de 3 dias úteis.
  • Pendências regulatórias: ainda dependem de ato conjunto RFB/CGIBS o cronograma da 2ª etapa, os percentuais do simplificado por setor, a habilitação de cada arranjo e os procedimentos de cancelamento. Esta página é atualizada a cada ato publicado.
  • Setor financeiro: prestadores e credenciadoras carregam o custo de integração (sete fluxos de API, janelas de tempo, auditoria ponta a ponta) — custo que tende a ser repassado em tarifa.
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Como se preparar: o roteiro TaxUp

FrenteO que fazer em 2026
FinanceiroReprojetar fluxo de caixa 2027 sem float tributário; renegociar linhas e prazos; recalcular antecipação de recebíveis
FiscalMapear operações por arranjo de pagamento e contraparte (regime regular × consumidor); simular procedimento padrão × simplificado
TI / ERPGarantir originação de cobranças com IBS/CBS e vínculo ao documento fiscal; preparar conciliação a três pontas e tratamento de estornos. Conecta-se à adaptação da NF-e
Comercial / JurídicoCláusulas tributárias nos contratos; política de preço e prazo recalibrada; comunicação com clientes B2B sobre crédito condicionado. Apoio em compliance tributário

A Reforma vai premiar quem tratar 2026 como ano de projeto, não de espera. No split payment isso é literal: quem chegar a 2027 com cobrança bem originada e caixa reprojetado transforma a obrigação em vantagem competitiva — inclusive na visão do cliente, cujo crédito depende do pagamento confirmado.

Equipe TaxUp, Prática Tributária
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Referências e fontes oficiais

Diagnóstico de impacto split payment — gratuito

Modelagem do impacto no seu fluxo de caixa, mapa de operações por arranjo de pagamento e plano de adequação de sistemas — conduzido por consultor sênior.

Agendar diagnóstico
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Perguntas frequentes

O que é split payment?
É o mecanismo da Reforma Tributária em que o IBS e a CBS são separados e recolhidos automaticamente na liquidação financeira do pagamento. O fornecedor recebe o valor líquido e o tributo segue direto para a Receita Federal e o Comitê Gestor do IBS (LC 214/2025, arts. 31 a 35).
Quando o split payment entra em vigor?
A 1ª etapa começa em 2027, facultativa e restrita a operações entre contribuintes do regime regular (B2B), nos arranjos boleto, Pix, TED e TEF. A 2ª etapa, obrigatória e com cartões e vendas B2C, terá data fixada por ato conjunto RFB/CGIBS. Em 2026 não há split em produção — é o ano de homologação dos sistemas.
Quais são as modalidades de split payment?
A LC 214/2025 prevê dois procedimentos: o padrão (art. 32), com consulta aos sistemas do Fisco, e o simplificado (art. 33), por percentual preestabelecido. Na camada técnica, o padrão se desdobra nos modos "super inteligente" (retorno em tempo real) e "off-line" (retenção integral com devolução em até 3 dias úteis). Pagamentos fora dos arranjos, como dinheiro, seguem o recolhimento pelo adquirente (art. 36).
O que é o split payment "super inteligente"?
É o modo pleno do procedimento padrão: a plataforma devolve ao sistema de pagamento, em tempo quase real, o valor corrigido e o valor em aberto do tributo daquela transação, e a segregação sai no valor exato — já descontado o que foi extinto por crédito ou pagamento. O nome vem do Manual de Integração da Plataforma Pública (Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 2/2026).
Qual a diferença entre o procedimento padrão e o simplificado?
O padrão calcula o valor exato por consulta ao Fisco e serve ao B2B do regime regular. O simplificado aplica percentual fixo definido por ato RFB/CGIBS, com ajuste no fim do período — e não gera crédito ao adquirente do regime regular, o que o torna inadequado para vendas B2B.
Quais pagamentos terão split payment?
Doze arranjos (Decreto 12.955/2026, art. 28, § 5º): boleto, cinco modalidades de Pix, TED, TEF, cartões de crédito, débito e pré-pago e vouchers. Boleto, Pix e transferências entram na 1ª etapa (2027); cartões e vouchers, na 2ª. Dinheiro em espécie fica fora do split — vale o recolhimento pelo adquirente.
Empresas do Simples Nacional terão split payment?
Não, enquanto recolherem pelo DAS. A exceção é quem optar por apurar IBS/CBS no regime regular (Simples híbrido): a parcela IBS/CBS das suas vendas passa pela lógica do split. A escolha afeta o crédito que o cliente B2B aproveita.
O split payment vale para cartão de crédito?
Sim, mas apenas na 2ª etapa, em data a ser definida por ato conjunto RFB/CGIBS. Na 1ª etapa (2027), o split opera somente em boleto, Pix, TED e TEF, em operações entre empresas do regime regular.
E se for retido mais imposto do que o devido?
No procedimento padrão, o excedente deve ser devolvido ao fornecedor em até 3 dias úteis, contados da liquidação financeira ou da vinculação da operação ao documento fiscal, o que ocorrer por último. No simplificado, o acerto ocorre no fechamento do período, com transferência do excesso também em 3 dias úteis.
A antecipação de recebíveis muda o split payment?
Não. O Decreto 12.955/2026 (art. 31, III) determina que a liquidação antecipada de recebíveis não altera a segregação: o split acontece quando o cliente paga cada parcela, no calendário original — mesmo que a empresa já tenha antecipado o valor líquido com banco ou FIDC.
Por que o split payment foi criado?
Para eliminar o intervalo entre o pagamento do consumidor e o recolhimento do tributo — onde vivem a inadimplência e parte da sonegação — e para dar lastro ao crédito do adquirente, que passa a nascer do pagamento confirmado. Itália e Polônia usam mecanismos parecidos em escala restrita; o Brasil será o primeiro a integrá-lo amplamente ao sistema de pagamentos.
Onde consultar as regras oficiais do split payment?
Na LC 214/2025 (arts. 27 e 31 a 36), no Decreto 12.955/2026 (arts. 28 a 33 e 39) e no Manual de Integração da Plataforma Pública, aprovado pelo Ato Conjunto RFB/CGIBS nº 2/2026 e disponível no portal da Receita Federal e em consumo.tributos.gov.br.
Como funciona o diagnóstico gratuito da TaxUp?
O diagnóstico inicial é uma reunião de 30 minutos, sem custo e sem compromisso, conduzida por um consultor sênior. Mapeamos a situação tributária da empresa, identificamos as oportunidades aplicáveis e indicamos o caminho técnico mais sustentável — independentemente de você seguir conosco. Para casos urgentes (autuação recente, prazo decadencial próximo, edital de transação ativo), a análise pode ser priorizada.
Quem conduz o projeto na TaxUp?
O consultor responsável conduz o projeto pessoalmente, do diagnóstico inicial à entrega final. Você fala diretamente com quem assina o parecer e decide a tese — sem camadas hierárquicas intermediárias. Sustentação oral em CARF e tribunais superiores é sempre conduzida pelo consultor que conhece o caso desde o início.
Como é o modelo de honorários?
Varia por tipo de projeto. Para recuperação de créditos com tese consolidada, trabalhamos preferencialmente em success fee (sem custo antecipado, percentual sobre o valor recuperado). Para projetos complexos com perícia ou tese controvertida, modelo misto (fixo reduzido + êxito menor). Para Transfer Pricing, Compliance e Planejamento, honorário por escopo. Em todos os casos, o modelo é proposto após o diagnóstico inicial gratuito.
AUTORIA TÉCNICA

Equipe TaxUp · Prática Tributária

Direito Tributário

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